domingo, 17 de abril de 2011

FUI EU, PAPAI

Devia ser 1978, segundo o meu pai. Havíamos acabado de chegar à praia, provavelmente do Olho D’água, e começamos a descarregar o carro. Acredito que não me incluíram neste afazer.
Peraí! Estou pulando algumas partes. A família tinha acabado de crescer com o nascimento da caçula, a Mariana, nem um ano completo; eu estava com quatro; Alexandre com seis; Ângela com sete. Morávamos em São Luis do Maranhão desde 1973. A viagem de ida foi no dia do aniversário do Alexandre, 16 de junho. Teve até “Parabéns pra Você” no avião, diploma de piloto-mirim que mamãe guardava até outro dia.
Nogueira no estacionamento da Escola
de Arquiteura e Urbanismo da UFC
Papai recebeu um convite quando ainda estava na Faculdade. Resolveu uns problemas em um condomínio de casas em São Luis que não conseguiam vender. O problema é que as casas eram feias; imagine dezenas de casas idênticas e pavorosas lado-a-lado! Eu fiz quatro propostas de alterações nas fachadas e elas venderam que nem água. Não havia arquitetos em São Luis, buscaram um na faculdade mais próxima, em Fortaleza. Papai era estudante de engenharia civil quando entrou na primeira turma da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, ato que eu viria repetir 27 anos depois. Conta que eles foram à recepção, uma mesa na entrada onde se sentava o saudoso Nogueira e pediram pra falar com um estudante. Mário! Ele ia passando quando o Nogueira chamou. Acaso? Destino? Nasci Ludovicense.
Nesta época já estávamos morando numa casa que o Papai projetou. Eu adorava aquela casa. Mudamos-nos antes do fim da obra. Nós seis mais a Datinha, uns 15 anos, Maria das Graças de batismo, nossa babá, e o King, um pequinês com traços de maltês que era o meu xodó. Um belo dia, não posso precisar a razão, me pendurei no varal do quintal. Obviamente que, por mais leve que eu fosse, ele cedeu com roupa e tudo. Escondi-me estrategicamente em lugar nenhum e quando questionado sobre o ocorrido culpei descaradamente o mestre da obra, Foi o Baxim. O indivíduo em questão devia ser pouco mais alto que eu, mulato de bigodinho rodateto-de-beiço (deve ter um nome certo de chamar isso), tinha um sorriso maior que ele. O resultado foi que emprestei seu apelido. Ahh, foi o Baxim, né!? Pronto, Baxim até hoje! Pra melhorar, não cheguei nos 1,70m.
Naquela época, o esquema da praia era o “farofeiro”: você levava tudo, inclusive as cadeiras e guarda-sóis. Levávamos isopor com bebida e comida, brinquedos, bola, toalhas, etc. Não havia barracas de praia, o carro ia pra areia. A maré desce muito e deixa uma faixa gigantesca de areia úmida compactada. Ninguém por perto. O mar, uma piscina infantil de dezenas de metros de largura. Em suma, um paraíso.
Um arbusto costeiro dava o “maracá”, tipo umas cascas de amendoim pretas e lisas com sementes pequenas que, quando secas, nós colhíamos e sacudíamos como guizos. Outro dava a “caneta do mar”. Eram frutos não comestíveis com forma de berinjelas bem magrinhas e pontas finas como canetas que usávamos pra desenhar na areia lisinha que tinha acabado de secar. Estas a gente não colhia, o mar trazia ou já estavam ali, só pra gente catar.
Ele conta que, tendo descarregado o carro e armado o circo, viu um cachorro recém desenhado na areia e achou de boa qualidade. Querendo parabenizar o(a) autor(a) chamou o mais provável artista, a Datinha. Graça, foi você quem fez este cachorro? Não fui eu não, Seu Mário. Hum. Ângela. Minha, filha, foi você que desenhou este cachorrinho? Neste momento ele sentiu um puxão na perna da bermuda, só pra ver um pitoco de cabelos loirinhos cacheados já cobertos de areia. Fui eu, papai. E ali estava eu, desta vez assumindo culpa em alguma coisa. Foi, meu filho? Desenhe outro cachorrinho pro papai. E em pouco tempo o primeiro cachorro tinha um irmão gêmeo.
Foi aí, meu filho, que eu notei que você já sabia desenhar melhor do que eu.

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